Berlim, a capital que se reconstrói sempre
Sérgio C. Andrade

Arquitectos debatem a cidade-estaleiro. Programa inclui cinema e a edição de um livro.

O que é que há de comum entre Berlim e o Ground Zero em Nova Iorque, o bairro do Chiado em Lisboa, ou o mercado do Bolhão no Porto? Respostas e reflexões sobre estes paralelismos vão passar, entre hoje e sábado, pelo projecto Berlim: Reconstrução Crítica, uma iniciativa, que integra um ciclo de filmes, a edição de um livro e um seminário internacional que vai reunir alguns arquitectos portugueses com obra (ou projectos) na capital alemã e outros estrangeiros de um ou outro modo a ela ligados, sempre através da arquitectura.

O arquitecto Pedro Baía, comissário deste projecto da associação Circo de Ideias, justifica o programa e o seu timing pelo desejo de antecipar o 20º aniversário da queda do Muro de Berlim (que acontece em Novembro de 2009). Mas, principalmente, pelo facto de Berlim ser “uma cidade mítica e um caso de estudo paradigmático” para quem se interessa pela arquitectura urbana.

No século XX, a reconstrução arquitectónica e urbanística de Berlim nos anos do pós-guerra fez-se de forma diferenciada, nos sectores ocidental e oriental, conforme os imaginários políticos e sociais dos regimes que ficaram a vigorar em cada um dos lados do muro, entre 1961 e 1989. Tanto nessa altura como, principalmente, depois da queda do muro, Berlim deparou-se com este conflito essencial: “Como lidar com a perda da memória dos lugares, das ruas, dos edifícios”, diz Pedro Baía, que estudou o caso particular da cidade para a sua prova final de licenciatura.

Esse conflito e questionamento mantêm-se presentes em Berlim, que continua a ser um dos principais estaleiros de reconstrução urbanística na Europa, como se pode verificar, por exemplo, com a decisão de demolir o antigo Palácio da República da ex-Berlim Leste ou de desactivar o histórico aeroporto de Tempelhof, que Norman Foster um dia classificou como “a mãe de todos os aeroportos”.

São demolições resultantes de decisões políticas, que têm dividido a opinião pública e inquietado os arquitectos e investigadores, como também aconteceu na reconstrução do Chiado, e está agora a suceder, salvaguardada a diferença de escalas, “com a indefinição quanto ao futuro do mercado do Bolhão”, explica Pedro Baía.

Estas questões estarão em debate no seminário internacional que vai ter lugar no sábado, dia 8, no Auditório de Serralves. Nele vão participar arquitectos como Siza Vieira, que certamente falará do seu edifício Bonjour Tristesse, que, no início da década de 1980 foi construído no bairro de Kreuzberg, mas também do projecto não concretizado para o Fórum da Cultura. Um projecto que também ficou no papel foi o que Inês Lobo e Pedro Domingos fizeram para a Embaixada de Portugal, e dele irão igualmente falar os seus autores, numa jornada dividida em três sessões distribuídas por temas como Memória e identidade, Projectar e Política urbana em Berlim. Nas mesas respectivas estarão ainda figuras como o arquitecto americano Ralph Stern ou Gerrit Confurius, que foi o comissário da Alemanha na Trienal de Arquitectura de Lisboa 2007.

Para além do seminário, há um ciclo de filmes (no Cinema Passos Manuel, às 21h30) que retratam a cidade ao longo do século XX: Berlim, Sinfonia de Uma Cidade (1927), de Walter Ruttmann (dia 4); Alemanha, Ano Zero (1947), de Roberto Rossellini (dia 5); Asas do Desejo (1987), de Wim Wenders (dia 6); e Berlin Babylon (2001), de Hubertus Siegert.

O programa completa-se com a edição de um livro que tem o mesmo título do projecto, Berlim: Reconstrução Crítica, e que, compila textos dos participantes no seminário, entre os quais uma entrevista feita a Rem Koolhaas pelo realizador Hubertus Siegert.

Sérgio C. Andrade, Público, P2, p.10, 04-11-2008